Doce lembrança: O balanço da infância.
Era uma tarde ensolarada de domingo.
No ano de 1970, Seu Jacinto, com 40 anos, era um pai carinhoso de 4 filhos e resolveu presentear a filha do meio, no caso eu mesma, a Fátima, de 6 anos, com um balanço que ele mesmo construiu. Chegou o dia de instalar o balanço e o local escolhido foi em um caibro bem largo do beiral do telhado da garagem.
De repente, chega em sua Kombi o irmão de meu pai, o tio Onofre, com toda a família, tia Assunção e os muitos filhos. Então eu, meus irmãos e meus primos fomos brincar, enquanto o balanço era instalado pelo meu pai com a ajuda de seu irmão mais velho.
Lembro-me bem desse dia especial, meu tio com aquele vozeirão agudo elogiando meu pai pela ideia e qualidade do balanço, o que me deixou ainda mais agradecida e orgulhosa do meu pai. Pois bem, este balanço acompanhou parte da minha infância e pré-adolescência, e foi ao longo do balançar que desenvolvi muitas das minhas observações do desenrolar da vida, das minhas inquietudes.
Enquanto balançava, refletia sobre os dias, avistava ao longe morros arborizados, às vezes cavalos pastando, pipas coloridas no ar, o céu e suas mudanças, os desenhos formados pelas nuvens.
Enquanto o vento forte batia no meu rosto, desalinhava meus cabelos e fazia-me sentir destemida por enfrentar a altura que o balanço alcançava a cada arrancada sob meu controle e prazer. O balanço de infância me ensinou, sem que eu me desse conta, a fazer conta do balanço dos fatos, das ideias, das expectativas, dos planos, das fases, das experiências, enfim, da vida, e concluir ainda em tenra idade que cada pessoa é um mundo, ao passo que o mundo é um só.
Curiosamente, este brinquedo de criança me possibilitou viver o presente com os olhos no futuro e contar emocionada este singelo e verdadeiro conto.
